sábado, 2 de outubro de 2010

SAMBA DA BENÇÃO

Essa música não saiu da minha cabeça hoje...
Ficou linda esta versão da Bethânia.
A benção minhas amigas daqui do Blog!!!

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Os Três Mal-Amados

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.


João Cabral de Melo Neto

terça-feira, 21 de setembro de 2010




Gosto de gente com a cabeça no lugar, de conteúdo interno, idealismo nos olhos e dois pés no chão da realidade.

Gosto de gente que ri, chora, se emociona com um simples e-mail, um telefonema, uma canção suave, um bom filme, um bom livro, um gesto de carinho, um abraço, um afago.

Gente que ama e curte saudade, gosta de amigos, cultiva flores, ama os animais.
Admira paisagens, poeira e chuva.

Gente que tem tempo para sorrir bondade, semear perdão, repartir ternuras, compartilhar vivências e dar espaço para as emoções dentro de si, emoções que fluem naturalmente de dentro de seu ser!

Gente que gosta de fazer as coisas que gosta, sem fugir de compromissos difíceis e inadiáveis,
por mais desgastantes que sejam.

Gente que colhe, orienta, se entende, aconselha, busca a verdade e quer sempre aprender, mesmo que seja de uma criança, de um pobre, de um analfabeto.

Gente de coração desarmado,
em ódio e preconceitos baratos.
Com muito AMOR dentro de si.

Gente que erra e reconhece, cai e se levanta,
apanha e assimila os golpes, tirando lições dos erros e fazendo redentoras suas lágrimas e sofrimentos.

Gosto muito de gente assim como VOCÊ
e desconfio que é deste tipo de gente que DEUS também gosta!

Arthur da Távola

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

PARA AS MINHAS PESSOAS HABITADAS

Minha Amiga Argentina, lá de Salta,a Paulinha, algumas vezes me escreveu dizendo que eu sou uma pessoa habitada e eu sempre ficava imaginando o que seria isso!
Na minha santa ignorância achei que era alguma "expressão" usada no nosso portunhol...
Não contente resolvi perguntar à Nena o que isso significava e ela me enviou esse texto!


"Os “habitados” são seres com conteúdo, preenchidos de angústias e incertezas, mas não menos felizes por causa disso.
Estava conversando com uma amiga, dia desses. Ela comentava sobre uma terceira pessoa, que eu não conhecia. A descreveu como sendo boa gente, esforçada, ótimo caráter. “Só tem um probleminha: não é habitada”. Rimos. É uma expressão coloquial na França - habité - mas nunca tinha escutado por estas paragens e com este sentido. Lembrei de uma outra amiga que, de forma parecida, também costuma dizer “aquela ali tem gente em casa” quando se refere a pessoas com conteúdo.

Uma pessoa pode ser altamente confiável, gentil, carinhosa, simpática, mas se não é habitada, rapidinho coloca os outros pra dormir. Uma pessoa habitada é uma pessoa possuída, não necessariamente pelo demo, ainda que satanás esteja longe de ser má referência. Clarice Lispector certa vez escreveu uma carta a Fernando Sabino dizendo que faltava demônio em Berna, onde morava na ocasião. A Suíça, de fato, é um país de contos-de-fada, onde tudo funciona, onde todos são belos, onde a vida parece uma pintura, um rótulo de chocolate. Mas falta uma ebulição que a salve do marasmo.

Retornando ao assunto: pessoas habitadas são aquelas possuídas, de fato, por si mesmas, em diversas versões. Os habitados estão preenchidos de indagações, angústias, incertezas, mas não são menos felizes por causa disso. Não transformam suas “inadequações” em doença, mas em força e curiosidade. Não recuam diante de encruzilhadas, não se amedrontam com transgressões, não adotam as opiniões dos outros para facilitar o diálogo. São pessoas que surpreendem com um gesto ou uma fala fora do script, sem nenhuma disposição para serem bonecos de ventríloquos. Ao contrário, encantam pela verdade pessoal que defendem. Além disso, mantêm com a solidão uma relação mais do que cordial.

Então são as criaturas mais incríveis do universo? Não necessariamente. Entre os habitados há de tudo, gente fenomenal e também assassinos, pervertidos e demais malucos que não merecem abrandamento de pena pelo fato de serem, em certos aspectos, bastante interessantes. Interessam, mas assustam. Interessam, mas causam dano. Eu não gostaria de repartir a mesa de um restaurante com Hannibal Lecter, “The Cannibal”, ainda que eu não tenha dúvida de que o personagem imortalizado por Anthony Hopkins renderia um papo mais estimulante do que uma conversa com, sei lá, Britney Spears, que só tem gente em casa porque está grávida. Zzzzzzzzzzz.

Que tenhamos a sorte de esbarrar com seres habitados e ao mesmo tempo inofensivos, cujo único mal que possam fazer é nos fascinar e nos manter acordados uma madrugada inteira. Ou a vida inteira, o que é melhor ainda". Martha Medeiros

Adorei saber significado e, sem falsa modéstia, me achei sim uma pessoa habitada!
Mas também me dei conta que tenho ao meu redor um monte delas,que me fascinam pela sua grandeza de caráter,simplicidade,alegria de viver,pureza de espírito, enfim, pessoas com quem passaria horas batendo papo e admirando e aprendendo.
E é para todas vocês,minhas pessoas habitadas,que dedico este post de hoje.
Obrigada por estarem em minha vida...
Besos

domingo, 5 de setembro de 2010

PRECE DA SOLUÇÃO - CALUNGA

A Prece da Solução é crer que tudo já está resolvido.

Tudo está perfeito na vida e no Universo.

Aquilo que me faz viver, aquilo que põe vontade em mim, é a Fonte da Vida que aparece em mim.
Porque Ela tem no Universo todas as soluções para mim.
Eu acredito em todas as soluções Acredito em todas as saídas.
Acredito em toda modificação.

Acredito de coração, que tudo se renova, tudo recomeça, tudo avança, tudo progride, tudo renasce, tudo se reforma.
Acredito na generosidade do Universo para comigo e para com todos.

Abro, neste instante, as portas da confiança do meu coração à generosidade da vida.

Ao abrir as portas, a luz me aquece e a confiança brota; o resto é ilusão.

Tudo vem a mim na medida certa das minhas atitudes; e minha atitude, agora, é de fartura.

Abro minhas mãos como quem solta o que prende.
Solto o passado que não me serve e o futuro ausente.


Abro minhas mãos para receber.
Abro minhas mãos para deixar ser.
Abro minha mente para ouvir, meu coração para sentir, meu colo para receber.

Liberto minhas pernas para caminhar, minha garganta para expressar, meus olhos para ver, meus ouvidos para escutar.

Liberto minhas costas para não precisar carregar, me liberto do mundo para não me escravizar.

Largo este mundo para dominá-lo, não pergunto para entendê-lo, não chamo para alcançá-lo.

Meu silêncio é a confiança que tudo é solução.

Meus planos, eu não penso.
O Universo é o grande pastor de toda ovelha, porque Deus aos homens se assemelha, e cria neles as chances, o recomeço, a renovação.

Nada falta para nenhum filho, o eterno Pai concede tudo na medida de cada um.

E minha medida agora é a generosidade com que perdôo o inimigo;
o indivíduo que passou por mim e mostrou a minha intolerância e as minhas limitações.

Liberto aos outros do julgamento, os críticos do meu lamento, os agressores do meu sofrimento.

Liberto-me dos olhos dos outros, da boca alheia, do palco das mentiras para ficar na minha verdade interior.

Não sou como todos e não preciso ser.

A vida como é para os outros não tem que, necessariamente, ser a minha.

Eu não tenho medo.

Quero dizer bem claro ao Universo que não tenho medo de ser o único a ser feliz na Terra, a ser muito rico na Terra, a viver na chuva de bênçãos constantes;

não tenho medo de ser aquele que não tem medo, não tenho problemas de ser aquele que não tem problemas, não tenho vergonha de ser aquele que não tem vergonha, não tenho pudor de ser aquele que não tem pudor.

Assim, me permito viver na eterna benção do fluxo constante das portas que eu mesmo abro, sabendo que Deus só faz por mim quando em mim eu planto Deus - a consciência do Bem, a consciência do melhor.

Todos os canais para a solução estão abertos, porque, na verdade, nunca se fecharam.

Não há problemas.

Tudo está certo.

Está certo este momento, essa prece; está certo o que eu como,
o que eu falo, o que eu vivo - tudo é benção na minha vida.


Eu aceito esta benção como um filho pródigo escolhido recebendo a sua recompensa.

Aceito a vida no que há de dor e no que há de saber.
Aceito a vida com ou sem amor.
Aceito a vida pelo dom que ela é; no que é simpático e antipático, no que é prazer e no que não é.
Aceito a vida inteira porque vejo nela a benção em todos os sentidos;
o que me falta me ensina aquilo que não tenho, o que eu tenho me ensina o que é ter as coisas.

Tudo me leva, tudo se mostra, tudo me reconhece;
tudo me mostra a mim mesmo e tudo me eleva.

Estou em paz.

Só o Bem é real, só o Bem é verdadeiro, estou em paz, neste gesto em que abro os meus braços da fraternidade e comungo com o Universo de bênçãos e de Bem.

Neste momento é o que mais me convém.

Tudo é assim porque assim está, porque esse é o ponto onde eu moro.

No Universo onde me encontro, na atitude que tomo, na bondade imensa que a Vida me concedeu da liberdade de criar o mundo que eu quiser e de me colocar onde eu bem entender.

Neste instante, eu me coloco no terreno da paz e da confiança plena.

Na certeza que tudo que eu quero, tudo eu tenho, que todo querer é poder, e já é ter.

E que, na chama desta confiança, reforço todo Bem daquilo que está,
porque tudo já está e tudo está aparecendo na consciência pouco a pouco.

Nesta paz que eu fico, eu vou transformando esta Prece da Solução num gesto contínuo na minha vida.

Eu vou viver só no aqui e no agora, sem pensar que existe hora, porque o Universo não tem tempo, porque a Vida é sempre só o que eu posso sentir, a Vida toda é só esta aqui, aquela que eu sinto agora.

Agora é eterno, pleno e real, por isso eu sou eterno pleno e real.

Porque sou aquele que está além do tempo, porque eu sou a consciência viva do próprio Universo.

CHEIRO DE MATO